Os casos como o de Lídio Mateus e o comportamento no Brasil Web 2.0
Lídio Mateus em performance no Youtube
Parece claro que se iniciou o que os entendidos chamam de “processo viral”, alimentado também por microbloggins como Twiter e Plurk, além de comunidades no Orkut e tantos outras plagas desse ciberespaço louco. Lídio bloqueou a possibilidade de se fazer comentários no vídeo original. Porém, a busca pelas palavras-chave “fresco boiola” no Youtube, no momento, retorna 32 vídeos. A maioria absoluta é composta de cópias do vídeo original, ou de outros vídeos que parecem ter sido postados originalmente no Perfil de Lídio ou de respostas ao vídeo dele. Perfis com seu nome e fotos foram criados no Orkut e outros. A mesma busca no Google retornou, agora mesmo, cerca de 7800 resultados.
As pessoas têm se dedicado principalmente a zombar do rapaz. O bordão “aê ô fresco, boiola” é extremamente repetido por aí. Blogs “contam” sua história aos borbotões. Adolescentes gastam seu miguxês (incluindo “amigos” a quem Lídio agradece o apoio em seu “blog oficial“) numa infinidade de comentários onde a tônica é o preconceito e a zombaria. “Maldita inclusão digital”, “suburbano”, “viadinho”, “florzinha”, “morte aos emos” e tantas outras “amabilidades” que não valem ser pronunciadas por aqui, são expressões que pululam por todo lugar, como nos comentários de uma das cópias do vídeo.
O que é isso?! Quando é que o ser humano vai ser tornar algo do qual possa, pelo menos, não se envergonhar? Eu poderia aqui lançar mão daquele discurso que o brasileiro vive essa realidade — onde o terreno é fertilíssimo para a exploração midiática de casos como o de Eloá e o de Isabella Nardoni e completamente estéril para a discussão de questões sociais efetivamente relevantes — por causa do mais sério problema do nosso país: educação. E estaria certíssimo. Mas o buraco ainda é mais embaixo. Quem acredita na espiritualidade e reencarnação, como eu, sabe que esta condição é intrínseca à toda raça humana. Transcende aspectos como etnia, territorialidade e situação sócio-econômica.
Voltando ao Brasil, já que Obama ganhou mas o americano continua achando que nossa capital se chama Buenos Aires: Lídio é mais uma dessas pessoas que se tornaram “celebridades” através da tão badalada Web 2.0, principalmente por via do Youtube. Jeremias, Bill Goiaba e Sônia são alguns dos seus muitos antecessores. Por trás desses casos estão problemas sociais brasileiros seríssimos como alcoolismo e pobreza (que traz no seu bojo, nestes exemplos citados, mazelas como subnutrição, comprometimento da cognição, falta de perspectiva de vida, etc). Essas pessoas até vêm instigando a criatividade de outras a produzirem peças áudio-visuais efetivamente interessantes do ponto de vista composicional e musical. Os quatro em questão (Jeremias, Bill Goiaba, Sônia e Lídio) têm pelo menos uma versão dessas peças, às quais, por falta de um termo melhor, eu dei o nome de “vídeo-funks”. Esses vídeo-funks têm chamado tanto a minha atenção que me fizeram mudar completamente o objeto teórico da minha tese de doutorado em etnomusicologia. Há neles aspectos muito importantes e atuais dos processos criativos e de transmissão de música nesse contexto das comunidades virtuais, como reciclagem, bricolagem (samplertrofagia), questões de propriedade intelectual, entre muitos outros. Mas o brasileiro, ao que parece, tem dedicado seu tempo muito mais para fazer piada e zombar das pessoas envolvidas e muito menos para discutir as importantes questões sociais que esses vídeos denunciam. Infelizmente.


