Ideias privadas, memórias públicas…

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O blog de Luciano Caroso: etnomusicologia, ciberspaço, tecnocultura e outros bichos

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Um “bahiano” um tanto bizarro

Lorena era filha de um importante senhor. Um dia, na praia de Ipanema, aguardava seu pai em um bar, quando mirou um trigueñisimo” pianista baiano… Apaixonou-se perdidamente. Não tinha dinheiro nem futuro, o poeta sonhador baiano, mas, para Lorena, “foi mais que o céu, foi mais que um deus” já que “lhe ensinou o que é o amor”. Só que a felicidade de Lorena durou pouco, pois seu pai tomou conhecimento do “mal logrado” romance e esbravejando, ordenou que esquecesse o dito cujo: “esse miserável não é de tua categoria e não combina com nossa rica sociedade”, proibindo-a definitivamente de voltar a ver o trigueñisimo. Lorena então, desesperada, subiu ao Corcovado e, lá de cima, “abriu suas asas e voou”…

Deve ter se espatifado toda a bichinha, coitada :-). Também, foi logo se apaixonar por um negão-pianista-baiano (negão é minha tradução livre para trigueñisimo), lá pelas bandas da praia de Ipanema. Tinha mais, essa pendenga, era que terminar desse jeito mesmo. Lorena, de tão tenra idade, não deve ter ouvido falar de Ícaro e de suas asas coladas com uma cera de quinta categoria que, obviamente, derreteu. E o probrezinho despencou direto pro mar Egeu. Então ela, ao se atirar voando do Corcovado, pode ter querido planar pela Baía (ou seria Bahia?) da Guanabara, e quem sabe, pegar o vácuo de um urubu até o Porto da Barra (Salvador, Baía?), onde, bem pertinho, fica um outro Cristo, só que bem mais baixinho. Lá poderia ver o pôr-do-sol com seu negão pianista e mandar às favas os preconceitos paternos. Mas conta a lenda que ninguém nunca mais viu Lorena…

Eu conheci a estória de Lorena pela voz de uma linda “cantante” argentina: Soledad Pastorutti, através do incrível Youtube. Veja o videoclip abaixo da música “El Bahiano”:


Assita no Youtube

Concordo com aqueles que dizem que o mesmo brasileiro que adora rotular o americano de etnocêntrico por este achar que a capital do Brasil é Buenos Aires, jura de pé junto que a capital da terra dos aborígenes e dos cangurus é Sydney (sinto desapontar alguns, mas a capital da Austrália se chama Canberra) e ainda aposta seu último níquel que a capital dos Estados Unidos é New York. Então, longe de uma postura nacionalista do tipo policarpiana, o que me move ao escrever essas linhas é mais uma observação bem humorada do bizarro (que na acepção mais usada no Brasil significa estranho, esquisito), ou de como algo que parece ter bom suporte técnico e financeiro, pode descambar para o superficial e o equivocado. Antes de tudo não me consta que “Sole” seja (ou fosse em 1999, ano em que foi feito o videoclip) uma cantora de renome mundial. Mas, basta dar uma olhada no site da Sony BMG para perceber que a empresa não a teria em seu cast se ela, como artista, não tivesse, pelo menos, o potencial de transpor as fronteiras da Argentina. Portanto, não se trata de uma produção amadora. É certo também que as “bizarrices” já vinham acontecendo: Michel Jackson e Spike Lee são a prova disso, com o vídeo que produziram entre o Rio de Janeiro e Salvador, em 1996. Agora, mesmo que não se fizesse como um Paul Simon que veio, em 1990, a Salvador gravar com o Olodum a faixa “Obvious Child” do álbum Rhythm of the Saints, e que, depois de um ano, com um milhão de cópias vendidas e um Grammy nas mãos, levou os percussionistas para um grande show no Central Park, a coisa poderia ter sido, digamos, melhor contextualizada.

Vamos lá: especulam alguns que o vídeo foi gravado no Uruguai ou em Miami. Se foi na Conchichina, tudo bem. Na Bahia é que não foi. Muito menos no Rio de Janeiro. Se não, Soledad derreteria dentro do espesso casaco de lã vermelha, com o qual aparece na maior parte das cenas :-). E os trajes das “bahianas”? Poderiam muito bem ter saído dos desenhos de Rugendas ou Debret se já não tivessem precedentes nas estereotipadas novelas de época e mini-séries globais, que também devem ter inspirado as cenas com os círculos de velas. Os percussionistas estão uniformizados e aquietados demais, com instrumentos variados de menos, além de inadequadamente coloridos. E por falar nisso, a referência sonora a uma possível banda de percussão baiana, que acontece com mais ênfase no intermezzo, apesar de ser bem resolvida musicalmente, como é inclusive toda a música, soa irremediavelmente frustrante. Imaginem um violinista, por melhor que seja, tentando se fazer soar como uma orquestra de cordas inteira? É mais ou menos isso que acontece. O trigueñisimo baiano que toca piano (o ator, branco, diga-se de passagem, pode até ter nascido na Bahia, mas não tem quem me tire da cachola que o sujeito é argentiníssimo) num bar da praia de Ipanema, vestido como os escravos das novelas da Rede Globo, só que usando um colete com ares andinos, é um tipo quase surreal, vocês hão de concordar. Ver o videoclip ambientado numa pseudo Bahia e imaginar o casal se amando em Ipanema e Lorena se atirando do Corcovado é, no mínimo, engraçado.

Enfim, tudo me parece e me soa um tanto bizarro. Não que isso tenha alguma consequência para o futuro das relações entre Brasil e Argentina, mas que eu dei boas risadas com o vídeo, não há como negar. Por último, me vem à mente um trecho citado por Hemarno Vianna, num dos fóruns do Overmundo, de Jorge Luis Borges, onde este diz que a falta de camelos no Alcorão é exatamente a prova de que este livro é árabe. Maomé, o “autor”, por ser árabe, não sentiu a necessidade de incluir camelos, já que eram comuns ao seu contexto. Porém, “un falsario, un turista, un nacionalista árabe, lo primero que hubiera hecho es prodigar camellos, caravanas de camellos en cada página”.

1 comentário para “Um “bahiano” um tanto bizarro”

  1. 1
    Renata:

    O clipe com certeza foi gravado na cidade uruguaia de Colônia do Sacramento. Afirmo com certeza porque conheço bem o lugar.

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