Ideias privadas, memórias públicas…

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O blog de Luciano Caroso: etnomusicologia, ciberspaço, tecnocultura e outros bichos

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O Samba-lenço de Mauá, São Paulo

Entre as apresentações que aconteceram durante a inauguração da Casa do Samba em Santo Amaro da Purificação, Bahia, em 14 de setembro de 2007, uma me chamou a atenção, a princípio pelo carisma e articulação da mulher que é uma espécie de cantora/animadora. Depois veio a curiosidade em relação ao nome, Samba-lenço, que mesmo tendo uma referência iconográfica óbvia na utilização de um lenço como adereço coreográfico, me parecia ter implicações mais profundas. É interessante a descrição de Q. M. R. Ver Huell, holandes que esteve em Salvador entre 1807 e 1810, em seu livro Minha Primeira Viagem Marítima: 1807-1810, 2007, EDUFBA:

“Mal havia o creoulo começado a tocar e então, como por um misterioso passe de mágica que agitou os celebrantes, levantaram-se todos gritando – “Lundu! Lundu!” – e formando rapidamente um círculo. Um dos homens dirigiu-se ao centro da roda, apanhou um lenço e o encostou, segurando firmemente ambas as pontas com as mãos. […] Acabei criando coragem, pois, como diz o ditado: ‘à maneira da terra, à honra da terra’. Removi o meu lenço do pescoço e na seqüencia, por ser imprescindível à dança, coloquei-o novamente solto à sua volta” (p. 228-9).

Pode ser só coincidência mas a clara utilização do lenço como adereço “imprescindível à dança”, num lundu em Salvador no início do século XIX não deixa de ser um elemento inusitado de conexão com o Samba-lenço de Mauá.

Voltemos à cantora do grupo: por mais que tivesse procurado na Internet, não consegui obter o nome dela ou qualquer outra informação a seu respeito. Como o filme abaixo foi feito despretensiosamente, não me ocorreu procurá-la para colher tais informações no dia do evento, ainda mais porque o Samba-lenço foi um dos primeiros de uma série de grupos dos quais fiz pequenos vídeos. Este eu inclusive legendei, dada a precariedade da captação do som e da dicção, nem sempre clara, da nossa interlocutora:

Como disse, é um discurso rico, denso e articulado. Nos dá sinais de uma série questões que, acredito, são importantes para o estudo etnomusicológico deste tipo de manifestação:

  • A consciência negra e o entendimento por parte dos negros de sua relação visceral com o samba e outras manifestações culturais correlatas;
  • A complexidade do termo samba, que neste caso também é visto como agregador de outras manifestações como maculelê, maracatú, jongo, capoeira, etc;
  • A importante faceta do discurso de raíz e dos processos de transmissão dessa tradição: “a gente veio mostrar o samba […] que a minha tataravó ensinou, que a minha vó ensinou…”;
  • A relação, a meu ver indissociável, da música e da dança em muitos dos diversos tipos de samba;
  • A consciência da importância histórica e política do negro na formação destas manifestações, que, segundo ela, na proclamação da Lei Áurea também dançou;
  • Uma espécie de ascendência social pela qual estes grupos folclóricos têm passado, em função dos últimos acontecimentos como a proclamação do Samba do Recôncavo Baiano pela Unesco como patrimônio imaterial da humanidade e das recentes políticas governamentais de apoio. Vejam que ela deixa escapar que “se sentou no avião com medo”, o que pode denotar uma possível pouca familiaridade dela com viagens aéreas;
  • A necessidade de afirmação na sua identidade negra, já que é de São Paulo (injustamente conhecido como “túmulo do samba”): “Nós somos de São Paulo mas nós também somos negros”. Certamente fruto do caráter hegemônico que a Bahia tem nesse aspecto já que recebeu a maioria absoluta dos negros vindos para o Brasil entre 1500 e 1867;
  • A adequação à realidade midiática e à demanda profissinal. Vejam que ela fala de um jeito que faz lembrar cantores de axé, tentando maior interação com o público e não esquece de agradecer ao IPHAN. Pra mim é aspecto interessante se comparo este comportamento aos dos grupos de samba do recôncavo já que ainda não encontrei até o momento esta postura nos daqui (pelo menos tão articulada e bem sucedida).

Enfim, essa moça me fez pensar um bocado em 2′ 59″ de vídeo.

Agora vejam o próximo vídeo que fiz, na seqüência da apresentação do Samba-lenço. É uma saudação a São Benedito que, segundo consta, é santo de devoção dos sambadores do grupo:

Aê, aê, aê,
Aê quem vai falar?
São Benedito é o santo do preto
Fala na boca, responde no peito

2 comentários para “O Samba-lenço de Mauá, São Paulo”

  1. 1
    Ana Luiza:

    Muito bom!
    Super pertinente o discursso e a análise dele, Realmente a puxadora do Samba lenço é notável. Ela é também uma simpatia pessoalmente!
    Um grande grupo de resgate e resistência da cultura brasileira!!!

  2. 2
    lian:

    É a Claudete, a gigante que canta,e todas essas qualidades são reais, quem quiser saber mais sobre o samba lenço: assita o documentário,”Samba-lenço,a memória está no corpo”, da sociólogae cineasta Paula Quintino, o documetário a partir do mês de Novembro estará à venda no espaço caxuera em São Paulo.Confira!!

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