Ideias privadas, memórias públicas…

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O blog de Luciano Caroso: etnomusicologia, ciberspaço, tecnocultura e outros bichos

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Os casos como o de Lídio Mateus e o comportamento no Brasil Web 2.0


Lídio Mateus em performance no Youtube

Lídio Mateus é um rapaz de 18 anos, cujos perfis em redes sociais como Youtube e Orkut declaram ser de Santo André, São Paulo, Brasil. Ele gosta da Fresno, uma banda ligada ao gênero musical emocore. Lídio decidiu fazer um vídeo cantando a cançãoUma Música” e colocar na Internet. Só que Igor, seu sobrinho de uns 5, 6 anos, resolveu atrapalhar: começou a gritar “aê ô fresco, boiola” e Lídio teve de interromper a gravação do vídeo logo nos primeiros versos. Assim mesmo decidiu colocar esta gravação no Youtube. Pela data lá no site, o vídeo foi postado em 12 de julho de 2008. No momento em que escrevo este texto, em 07 de novembro de 2008, já conta com 113.084 exibições. Não se sabe muito bem como o vídeo foi parar em “sites de comédia” como Kibe Loco e, como referem os comentários de uma outra versão do mesmo vídeo no Youtube, até no JB (Jornal do Brasil?). Esta outra versão, postada há pouco mais de uma semana (29/01/2008), já foi assistida 262.945 vezes até este instante.
Parece claro que se iniciou o que os entendidos chamam de “processo viral”, alimentado também por microbloggins como Twiter e Plurk, além de comunidades no Orkut e tantos outras plagas desse ciberespaço louco. Lídio bloqueou a possibilidade de se fazer comentários no vídeo original. Porém, a busca pelas palavras-chave “fresco boiola” no Youtube, no momento, retorna 32 vídeos. A maioria absoluta é composta de cópias do vídeo original, ou de outros vídeos que parecem ter sido postados originalmente no Perfil de Lídio ou de respostas ao vídeo dele. Perfis com seu nome e fotos foram criados no Orkut e outros. A mesma busca no Google retornou, agora mesmo, cerca de 7800 resultados.
As pessoas têm se dedicado principalmente a zombar do rapaz. O bordão “aê ô fresco, boiola” é extremamente repetido por aí. Blogs “contam” sua história aos borbotões. Adolescentes gastam seu miguxês (incluindo “amigos” a quem Lídio agradece o apoio em seu “blog oficial“) numa infinidade de comentários onde a tônica é o preconceito e a zombaria. “Maldita inclusão digital”, “suburbano”, “viadinho”, “florzinha”, “morte aos emos” e tantas outras “amabilidades” que não valem ser pronunciadas por aqui, são expressões que pululam por todo lugar, como nos comentários de uma das cópias do vídeo.
O que é isso?! Quando é que o ser humano vai ser tornar algo do qual possa, pelo menos, não se envergonhar? Eu poderia aqui lançar mão daquele discurso que o brasileiro vive essa realidade — onde o terreno é fertilíssimo para a exploração midiática de casos como o de Eloá e o de Isabella Nardoni e completamente estéril para a discussão de questões sociais efetivamente relevantes — por causa do mais sério problema do nosso país: educação. E estaria certíssimo. Mas o buraco ainda é mais embaixo. Quem acredita na espiritualidade e reencarnação, como eu, sabe que esta condição é intrínseca à toda raça humana. Transcende aspectos como etnia, territorialidade e situação sócio-econômica.
Voltando ao Brasil, já que Obama ganhou mas o americano continua achando que nossa capital se chama Buenos Aires: Lídio é mais uma dessas pessoas que se tornaram “celebridades” através da tão badalada Web 2.0, principalmente por via do Youtube. Jeremias, Bill Goiaba e Sônia são alguns dos seus muitos antecessores. Por trás desses casos estão problemas sociais brasileiros seríssimos como alcoolismo e pobreza (que traz no seu bojo, nestes exemplos citados, mazelas como subnutrição, comprometimento da cognição, falta de perspectiva de vida, etc). Essas pessoas até vêm instigando a criatividade de outras a produzirem peças áudio-visuais efetivamente interessantes do ponto de vista composicional e musical. Os quatro em questão (Jeremias, Bill Goiaba, Sônia e Lídio) têm pelo menos uma versão dessas peças, às quais, por falta de um termo melhor, eu dei o nome de “vídeo-funks”. Esses vídeo-funks têm chamado tanto a minha atenção que me fizeram mudar completamente o objeto teórico da minha tese de doutorado em etnomusicologia. Há neles aspectos muito importantes e atuais dos processos criativos e de transmissão de música nesse contexto das comunidades virtuais, como reciclagem, bricolagem (samplertropofagia), questões de propriedade intelectual, entre muitos outros. Mas o brasileiro, ao que parece, tem dedicado seu tempo muito mais para fazer piada e zombar das pessoas envolvidas e muito menos para discutir as importantes questões sociais que esses vídeos denunciam. Infelizmente.

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