Ideias privadas, memórias públicas…

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O blog de Luciano Caroso: etnomusicologia, ciberspaço, tecnocultura e outros bichos

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Archive for Opinião

Videoclipe amador

[Este texto foi escrito originalmente para o Observatorio de Práticas Musicales Emergentes, da Sociedad de Etnomusicología]

A partir de sites como o YouTube, o conceito de videoclipe sofreu importantes modificações. Além de oferecerem uma via alternativa e poderosa de divulgação, tais sites interferiram significativamente nas formas de produção, na estética e na própria audiência dessa linguagem audiovisual. Essa audiência, antes passiva frente a canais de televisão como MTV, efetivamente mudou sua atitude. Agora, através de programas de edição de vídeo dirigidos para amadores, como o Windows Movie Maker ou o iMovie do Mac, constrói novas narrativas para os textos musicais, por via de técnicas variadas. Os videoclipes que surgem são uma espécie de meio de elaboração, de expressão da visão êmica. E, assim, sugerem reconfigurações que não só mostram-se adequadas às demandas e comportamentos no ciberespaço como evidenciam o poder de interatividade e “samplertropofagia” que tal meio oferece.

Algumas pessoas encaram essas produções amadoras como uma espécie de lixo digital, possibilitado pelas facilidades tecnológicas e barateamento dos custos de armazenamento dos bytes na Internet. Muitos desses videoclipes podem ser considerados spoofs, ou seja, variantes paródicas de outros vídeos, dentro de um processo viral de disseminação de informação, em inúmeras vias da dita Web 2.0. Apontam para desconstruções dos parâmetros da “alta cultura”, bem de acordo com alguns preceitos das perspectivas pós-modernistas.

Falando particularmente da realidade brasileira, estes videoclipes são “sonorizados” por canções que, via de regra, tocam e fazem sucesso na televisão e no rádio, mas também podem ser de bandas emergentes e até música composta e gravada despretensiosamente, sem intenções profissionais. Porém existe utilização frequente, de um lado, de canções de artistas e bandas dirigidas ao público adolescente, e de outro, de canções associadas a gêneros musicais apreciados por camadas sociais mais populares, como o “forró eletrônico“. Neste último contexto é comum o uso de letras de duplo sentido, o que é peculiarmente apropriado pelos videomakers amadores, na reconstrução dos discursos originais. De uma forma geral, quando se trata de um spoof, sua interpretação tende à literalidade. Assim, por exemplo, a palavra “cruzeiro”, que no contexto do vídeo (ou áudio) original foi utilizada para referir-se a uma composição de estrelas em forma de cruz, pode ser representada pela figura de uma cédula do cruzeiro (antiga moeda brasileira) ou do escudo do time de futebol Cruzeiro (do Estado de Minas Gerais).

Criatividade, originalidade, repetição, fruição, popularidade, viralidade, ética e outros são conceitos que vão sendo reinventados nesses tempos onde as relações encontram-se hipermidiatizadas. Sites como o Youtube oferecem ambiente adequado para essas relações acontecerem, além de um manancial quase infinito de outras possibilidades. Não é à toa que William Gibson, o inventor do termo “ciberespaço”, numa época onde estar online ainda era quase uma ficção científica, acha o Youtube “a coisa mais fascinante da Internet de hoje“. Os videoclipes amadores são uma boa demonstração de todo esse processo. Abaixo alguns exemplos de técnicas e procedimentos diferentes, utilizados na sua elaboração:

Imagem

1. Remix de videoclipe conhecido com imagens originais.

2. Spoof cuja recomposição de elementos cria um produto audiovisual “original”.

3. Flagrante de cena cotidiana associado a canção com discurso compatível.


Ambientes de simulação

1. Performance ao vivo em metaversos.

2. Contextualização feita com jogos de simulação.


Fotos
, desenhos, gifs, figuras…

1. Fotos sequenciais (stop-motion).

2. Desenhos feitos e coloridos à mão com lápis de cor, canetas hidrográficas, etc.

3. Desenhos feitos “ao mouse” com programas como o Paint do Windows.

4. Gifes animados colhidos de fontes variadas.

5. Gifs animados e fotos com intenções descritivas, irônicas e literais.


Outros

1. Animação feita com caracteres ascii em Excel.

Os casos como o de Lídio Mateus e o comportamento no Brasil Web 2.0

[youtube 3hVyDYsTMCI]
Lídio Mateus em performance no Youtube
Lídio Mateus é um rapaz de 18 anos, cujos perfis em redes sociais como Youtube e Orkut declaram ser de Santo André, São Paulo, Brasil. Ele gosta da Fresno, uma banda ligada ao gênero musical emocore. Lídio decidiu fazer um vídeo cantando a canção “Uma Música” e colocar na Internet. Só que Igor, seu sobrinho de uns 5, 6 anos, resolveu atrapalhar: começou a gritar “aê ô fresco, boiola” e Lídio teve de interromper a gravação do vídeo logo nos primeiros versos. Assim mesmo decidiu colocar esta gravação no Youtube… [Tá com saco? Leia o restante]

O Samba-lenço de Mauá, São Paulo

Entre as apresentações que aconteceram durante a inauguração da Casa do Samba em Santo Amaro da Purificação, Bahia, em 14 de setembro de 2007, uma me chamou a atenção, a princípio pelo carisma e articulação da mulher que é uma espécie de cantora/animadora. Depois veio a curiosidade em relação ao nome, Samba-lenço, que mesmo tendo uma referência iconográfica óbvia na utilização de um lenço como adereço coreográfico, me parecia ter implicações mais profundas… [Tá com saco? Leia o restante]

Os novos tempos já se ouvem…

Há algum tempo atrás veio uma notícia que chamou a atenção do mundo do entretenimento e da tecnologia: a banda britânica Radiohead disponibilizou para download seu novo álbum, In Rainbows, em seu site, com a seguinte regra: você baixa e paga quanto e se quiser. Um estudo divulgou que “durante os primeiros 29 dias de outubro, 1,2 milhão de pessoas de todo o mundo visitaram o site para download do In Rainbows. Destas, 62% decidiram não pagar nada pelo álbum.” Mesmo assim… [Tá com saco? Leia o restante]

De Pachelbel a Avril Lavigne

Numa discussão acerca dos perfis acadêmico e técnico dos profissionais de música, que de tão “engajada” e “engessada”, acabou se tornando enfadonha, ouvi algumas referências sobre um certo vídeo: “este é um vídeo sobre o mercado de trabalho do violoncelista” !?!?; ou “O vídeo pode ser divertido e engraçado para alguns, mas ao mesmo tempo violento e agressivo para outros. Portanto, não posso concordar com a irreverência e o desrespeito com que o ‘Johann’ foi tratado” !?!?!?!?. Quase que o etnocentrismo de uns e a visão nuviosa de outros… [Tá com saco? Leia o restante]

O malabarista + Golden slumbers = state of art

Tem situações que não precisam de muita explicação. Ver, ouvir e sentir é o suficiente. Foi assim quando vi este vídeo. Fiquei extasiado. Claro que Golden slumbers e sua fusão com Carry That Weight e The End, do antológico álbum dos Beatles, Abbey Road, ajudaram fazer fluír minha emoção. Mas o malabarista Chris Bliss… [Tá com saco? Leia o restante]

Um “bahiano” um tanto bizarro

Lorena era filha de um importante senhor. Um dia, na praia de Ipanema, aguardava seu pai em um bar, quando mirou um “trigueñisimo” pianista baiano… Apaixonou-se perdidamente. Não tinha dinheiro nem futuro, o poeta sonhador baiano, mas, para Lorena, “foi mais que o céu, foi mais que um deus” já que “lhe ensinou o que é o amor”. Só que a felicidade de Lorena durou pouco, pois seu pai tomou conhecimento do “mal logrado” romance e esbravejando, ordenou que esquecesse o dito cujo… [Tá com saco? Leia o restante]

A atualidade de Graham

“A rua (…) é extremamente estreita; apesar disso, todos os artífices trazem seus bancos e ferramentas para a rua. Nos espaços que deixam livres, ao longo da parede, estão os vendedores de frutas, de salsichas, de chouriços e de peixe frito, de azeite e doces, [pessoas] trançando chapéus ou tapetes, (…), cães, porcos e aves domésticas, sem separação nem distinção; e como a sarjeta corre no meio da rua, tudo ali se atira das diferentes lojas, bem como das janelas”. A cena descrita é perfeitamente condizível com tantas feiras livres, tão comuns em quase todo Brasil… [Tá com saco? Leia o restante]

O Produto

O texto abaixo foi escrito por mim em 1997. Na época foi uma espécie de desabafo de revolta pela forma com que o músico baiano era visto pelo empresário. Sei que os Al Capones da música baiana ainda estão por aí a produzir coisas como os “Reinos do Arrocha” da vida e a alimentar certos radialistas obesos com a famosa carne de sertão. Só que hoje penso um tanto diferente. As coisas estão um tanto diferentes. E o melhor é que eles, os referidos Al Capones, já não são mais os mesmos… [Tá com saco? Leia o restante]

Krzysztof Penderecki

Um compositor americano (por mais que eu tente, a minha já provecta idade não me deixa lembrar o nome dele :-) ) me disse certo dia: “esteja o mais auditivamente receptivo possível na primeira vez que escutar uma música. Esta será uma oportunidade única”. Parei pra pensar no que ele efetivamente queria me dizer e lembrei-me da primeira vez que ouvi três músicas… [Tá com saco? Leia o restante]

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