Ideias privadas, memórias públicas…

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O blog de Luciano Caroso: etnomusicologia, ciberspaço, tecnocultura e outros bichos

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Seikilos já sabia das coisas…

A relação texto-música é algo que, de uma forma ou de outra, sempre me acompanhou desde quando nem me dava conta que a música seria o fio condutor de minha vida. Houve época em que eu era (e ainda sou) fã de gente como Chico Buarque de Holanda e Renato Russo e não dava a mínima pro texto de suas canções (já me redimi, felizmente). Tirando o óbvio lado negativo e alienado que essa minha condição tinha, ela também me protegeu de ter de assimilar coisas como “japonês em braile” e “baby é magrelinha”, que todos diziam serem geniais e eu não entendia (e não entendo até hoje) a razão. Como atualmente a MPB foi tomada por profissionais de outras áreas (tem até vendedor de balas que se diz compositor), não é de se admirar que eu continue a não entender. Antes que a conversa descarrilhe (não estou aqui pra isso, pelo menos hoje) volto à relação texto-música: a idéia de melodia intimamente ligada às palavras, especialmente em questões de rima e métrica, já estava presente no que a humanidade por enquanto conhece como primórdio da música ocidental, lá na Grécia antiga. E põe antiga nisso. E, de lá pra cá, isso não tem mudado no lado esquerdo do meu atlas. Agora mesmo, estou às voltas com o assunto em função do meu ante-projeto (quiça será projeto!) de doutorado, que foi sucitado pela constatação de diferenças significativas (de texto e melodia) entre versões do Isto é Bom, lundu atribuído a Xisto Bahia (Salvador, 1841 – Caxambú, 1894) que também é famoso (o lundu) por ter sido a “primeira” gravação feita no Brasil. Só Deus sabe o tamanho do imbróglio que as questões relacionas à transmissão oral (novamente texto e música) vão me fazer escarafunchar.

Tardia se comparada ao fragmento do coro do Orestes de Eurípides, que chegou até nós por um papiro dos séculos II ou III a. C., O “Epitáfio de Seikilos” traz uma “canção de bebida”, inscrita numa estela (pedra funerária), encontrada em Aidine, na Turquia, próximo a Trales. Data, aproximadamente, do século I d. C.:


Fig. 1 – Canção do Epitáfio de Seikilos – reprodução da “partitura” original com texto.
Fonte: Wikipedia


Fig. 2 – Canção do Epitáfio de Seikilos – transcrição.
Fonte: Wikipedia

Ouça uma gravação

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Crédito: Norton Recorded Ahthology of Western Music, CD 01, Vol. I
Epitaph of Seikilos (De Organographia). Pandourion Records Records, USA, 1995

Abaixo vão duas traduções do texto original em grego, retiradas respectivamente das edições de História da Música Ocidental. Lisboa: Gradativa, 1997 (em português de Portugal) e A History of Western Music. 4ª ed. New York: Norton & Company, 1988 (em inglês), de D. Grout e C. Palisca:

“Até o fim dos teus dias, vive despreocupado.
Que nada te atormente. A vida é demasiado breve e o tempo cobra o seu tributo.”

“As long as you live, be lighthearted.
Let nothing trouble you. Life is only too short, and time takes its toll.”

Eu desconfio que esse cara não só soube viver como morrer :-).

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